A proposta para fazer um bloco

Num belo dia, ou melhor, numa tarde até meio nublada, depois de uma carga animal de aula, o Marquinho me chega com essa de fazer um bloco de carnaval. Tá bom, vamos sim!!! Sabe como é... conversa de maluco. Imagina! Ainda mais que o cara queria chamar o bloco de “Olhos nos Olhos”. Tudo bem, uma homenagem ao Chico Buarque e também à maneira de brindar que o Renato eternizou. Nunca se deve brindar olhando para o copo: o que vale é a companhia das pessoas... por isso “olho no olho, olho no olho”. Mas é claro que eu achei coisa de boiola. Veja só: eu venho de Caxias pra cá, pra ficar balançando o cuscuz num bloco chamado “Olhos no Olhos”? Pô, eu tinha acabado de dar aula o dia inteiro... E era sábado... Na hora do choppinho... Tá bom, Marquinho, vamos pensar, mas o nome tá sinistro! Lá no Buxixo, encontramos o Rodrigo Piraciaba, o Silvio e acho que o Gilberto tava também (ou era o Renato? Sei lá!), depois de alguns goles e um pouco de conversa sobre trabalho, pra variar, o Marquito me volta com esse papo de bloco. O Silvio concordou na hora que pelo menos precisava mudar o nome disso. Fez, então, a memória de alguns blocos que rolavam lá por Irajá - “Não empurra que é pior”, ou coisa assim - e mandou logo a pérola: Vamos chamar de “Peru Raçudo”... hahahahahahaha!!! Puts! Nem tanto ao mar nem tanto a terra, né? O primeiro era de boiola, o segundo de putão. Assim tá brabo. O jeito é desconversar.

No outro dia, eu e Marquinho tínhamos que dar uma aula juntos, que, aliás, ficou muito maneira.. tão maneira que resolvemos tomar um refresco para comemorar. Partimos, então, para o Petisco da Vila, na Vinte e Oito, e eu dei logo uma ligada pra quem de repente quisesse também molhar a palavra. Estávamos eu, Marconildo e Paulinho, aluno maneiríssimo... o Monty já tá chegando... vem de táxi mas é por opção. Chopp... tremoços... chopp... coverzinho... chopp... Monty já com seu copo... liga pro Diego, pro Rafael, pro Renato, pro Gilberto... pô ninguém pode, então vamos beber. Quando se está fragilizado etilicamente, corre-se o grande risco de ser ludibriado: alguns sexualmente, outros ideologicamente, outros carnavalescamente. O assunto do tal bloco surge de novo e, por incrível que pareça, de onde eu esperava mais resistência veio empolgação: Monty, que não sabe nem o que é carnaval, samba, môulatas gôstôusas, Riou dê Djaneirou, deu corda pro Marquinho. Tô ferrado! A idéia foi amadurecendo e a coisa foi tomando figura.

A escolha do nome
E é obvio que em papo de bar não falta mentira e sacanagem. Imagina, então, quando alguém me resolve pegar um guardanapo e pedir ao garçom uma caneta emprestada? Já vi tudo, vai dar m... os caras estão levando a sério. Peraí!!! Antes de ter um samba, a gente tem de definir um nome pro bloco. De acordo. Beleza. Vamos nessa. Cada um atacava de um lado, mas foi consenso que o nome deveria ter o perfil que nós desejávamos... reparou no nós??? Na verdade eu desejava beber e parar com essa doideira, mas você vai perceber que com essa turma não tem jeito, ela não é fácil, a gente se envolve sem perceber! Mas o que se passava na cabeça de cada um eu não tenho como dizer. Só sei que a conversa ia caindo na mesa e cada um ia dizendo o que esperava, colocando também as nossas limitações, dentre as quais o fato de nós não conhecermos lhufas de samba, etc. Todos acreditavam que o nome tinha que ter a nossa cara, a dos nossos amigos, e, principalmente, a cara de Vila Isabel. Resumindo: bebida e vida boêmia (e isso inclui a todos). E quem melhor para simbolizar isso tudo do que o bom e velho Noel Rosa. Há essa altura da narrativa, você deve estar imaginando coisa do tipo com aquele narigão ou aquele queixinho, quem lembrou justamente do saco? Calmaê, sangue bom... não é bem isso que você está pensando. Eu não saí dos olhos nos olhos para tropeçar no saco, né?! Acontece que, ao contrário de uma escola de samba, um bloco reúne foliões de todos os tipos e anima um carnaval de rua. Nesse caso, o humor é fundamental. Juro que antes de pensar no “Saco do Noel”, pensei no “Sovaco de Cristo”. Conhece esse bloco? Nome perfeito para quem está debaixo do Corcovado. Mas, no nosso caso, o que realmente valia era o duplo sentido, porque, se por um lado rola a idéia das partes baixas do Rosa, ninguém pode esquecer do bagageiro do Bom Velhinho. Aliás, esse foi o próximo passo. Um bloco organizado por gente ligada direta ou indiretamente ao magistério... ali na mesa, por exemplo, éramos três professores e um aluno, fora os tantos outros que ali não estavam... mas um bloco desse tipo não poderia sair senão num momento de férias. Por isso a idéia de se chamar “Bloco Pós-natalino e Pré-Carnavalesco Saco do Noel”. Ah! E por que “pré-carnavalesco”? Porque a maioria da galera, até então, costumava passar o carnaval fora do Rio. Agora, veja que coisa de maluco!!!
A composição do samba

Pensado tudo isso, só faltava o quê? O samba. Também, depois de tanto tempo, o garçom já tinha até desistido da caneta. E o Monty já esboçando os primeiros traços do Noel vestido de Papai... sacou o trocadilho? Pois bem, o refrão foi o que surgiu primeiro. Uns dois versos estavam prontinhos na minha cabeça. Pode ver que daqui pra frente não vai ter mais jeito. Vesti a camisa mesmo. Ops! Ainda não! As camisetas vieram bem depois... “Samba comigo gatinha / Aqui em Vila Isabel / Vem balançando a bundinha / E vem pro Saco do Noel”. Como a gente costuma dizer: ficou supimpa. Quem conhece a letra hoje sabe que o segundo verso é “Samba em Vila Isabel”. Sabe o que é isso? Coisa de professor de Português. Depois de o samba estar pronto e a gente cantar umas duzentas vezes no Petisco, Marquinho e Paulinho foram embora e eu e Monty fomos tomar a saideira na Praça Affonso Pena. Olhando a letra, eu achei que para acertar o ritmo e marcar duas repetições na estrofe (samba, samba e vem, vem), seria melhor alterar. É claro que antes eu liguei para os outros compositores... Mas como eu dizia, o refrão veio quase pronto. Confesso que eu pensava já ter ouvido em algum lugar esse ritmo. Pensei até que fosse uma música do Destilasom, grupo de pagode da galera da UFF: Palhacito, Xandão, Birigüi (que depois veio a ser o intérprete do Hino do Saco), Luis Cláudio, Alessandro (esse dois últimos só faziam figuração...). Enfim, o que importa é que saiu o refrão mas ainda faltava o restante. Aí, pronto. Cada um ia falando uma frase que tentava ser encaixada na melodia. “Quando chega o carnaval / Aqui em Vila Isabel / Boto o bloco na avenida / Segura o Saco do Noel”. Essa foi a única incoerência: se é pré-carnavalesco, no carnaval o bloco não vai estar na avenida... e daí, a gente já tava doidão mesmo!

As outras duas estrofes merecem um parágrafo à parte. Elas reúnem algumas das frases que mais caracterizam o espírito dessa galera. Pra começar, tem a expressão “Essa turma não é fácil”. Não sei bem que começou com essa brincadeira que dura até hoje. O Gilberto, pelo menos, fazia isso o tempo todo. Nós usávamos várias palavras, expressões e gírias bem antigas como “levados da breca”, “meninos salientes”, “anedota de salão”, “é do balacobaco” entre outras. Era como se a gente tivesse uns setenta anos. Pô, nada mais justo do que começar com “Essa turma não é fácil” para falar da galera que a partir daquele momento integraria o Saco do Noel. Foi nesse espírito, meio Jovem Guarda, que surgiu depois o verso “Nosso broto é papo firme”. Agora... quanto ao verso “A gente têm sangue no corpo”, que talvez seja o mais enigmático para quem tentou compreender a letra, é de minha involuntária autoria. Eu estava tentando explicar para o Monty porque que os homens perdem a capacidade de raciocinar quando têm uma ereção. É simples: o sangue que deveria oxigenar o cérebro vai para a cabeça errada. Só que, para desenvolver essa brilhante tese, eu comecei assim: Porra, Monty! A gente tem sangue no corpo, então.... Não! Jura! Olha, se você não dissesse!!! Já viu, né! Fui imortalizado por causa de uma frase idiota. Paciência. É nessas horas que a gente pede mais um chopp ao garçom e brinda “olho no olho”, como vai dizer o último verso da segunda estrofe. Já terceira é mais tranqüila. É uma imagem bem carnavalesca. Os vários personagens que a gente esperava ver no Saco. Tudo isso, é claro, numa linguagem bem moderna “Tem cocota e tem valete”. Aqui vale lembrar daquela cena do filme “Cidade de Deus” em que o Bené resolver abandonar o tráfico e faz um baile de despedida. Todo mundo estava presente, o pessoal do samba, do charme, da igreja e, obviamente, as cocotas. Tudo de bom. A palavra “jovem” que vem logo em seguida é uma homenagem ao Silvinho Bola de Fogo... lembra dele? O que queria que o bloco de chamasse “Peru Raçudo”. Esse cara tem mania de chamar os meninas e os rapazes de jovem, como se fosse um coroão. “Ô, jovem! Como é que vai?”. Sacanagem, não. Essa turma não é fácil. Já a palavra “intelectual” foi merchan mesmo. Afinal, nós tínhamos que garantir o emprego, né! Aí... depois é que vinha a pérola “O Saco do Noel é quente”, que você pode interpretar como quiser. “E vai arrebentar no carnaval”: essa era a certeza que nós tínhamos a partir do momento em que terminamos a letra do primeiro samba, que acabou consagrado como o Hino do Saco do Noel. Nós cantamos várias vezes durante toda a tarde e noite. O Monty havia terminado o desenho, já pensávamos em camisetas e patrocínios. Nos abraçávamos, bebíamos, cantávamos, bebíamos, telefonávamos pra todo mundo pra cantar o samba... foi show de bola. O melhor de tudo é que na semana seguinte, quando nos encontramos de novo, constatamos que cada um cantava o samba de um jeito diferente... hahahaha... Também, já não estávamos mais bêbados... essa turma realmente não é fácil.

Márcio Hilário
02/09/2005

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